Centrão tenta conter avanço de puxadores de votos, mas falha em acordo
Lideranças partidárias se reuniram para debater mudanças no sistema eleitoral diante do impacto de grandes votações na representação parlamentar.
Lideranças de partidos do Centrão realizaram uma reunião na residência oficial do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), nesta terça-feira (20), com o objetivo de buscar consenso em torno de uma reforma do sistema eleitoral. O encontro, que contou com representantes de siglas como PP, Podemos, PSDB e Republicanos, marcou a segunda tentativa de acordo em menos de dez dias para impor limites aos chamados puxadores de votos, candidatos que alcançam votações expressivas e asseguram a eleição de parlamentares com menor desempenho nas urnas.
A movimentação das legendas tradicionais surge como uma resposta direta ao avanço de nomes ligados ao PL e à direita nas disputas recentes. Na última eleição, figuras como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que obteve quase 3,2 milhões de votos, e o vereador paulista Lucas Pavanato (PL-SP), com pouco mais de 3 milhões de votos, garantiram mandatos para dezenas de outros correligionários devido ao sistema de quociente eleitoral e distribuição de sobras.
Nos bastidores políticos, o crescimento dessa bancada com forte atuação nas redes sociais tem gerado incômodo entre os partidos de centro. A articulação visa acelerar a votação de mudanças nas regras eleitorais ainda durante o atual ano legislativo, com a avaliação de que a apreciação do tema com a nova composição do Congresso reduziria as chances de aprovação da proposta.
Apesar da urgência demonstrada pelos líderes partidários, o encontro terminou sem um consenso sobre o modelo ideal para a reformulação. Estão sobre a mesa duas principais alternativas: a adoção de um sistema distrital misto, que divide as cadeiras entre eleitos por distritos e listas partidárias, e o chamado "distritão", modelo majoritário em que apenas os candidatos mais votados diretamente conquistam as vagas. Outras possibilidades, como a retomada das coligações partidárias extintas há quase uma década, também foram mencionadas.
O impacto do fenômeno eleitoral alterou a dinâmica tradicional das campanhas em estados como Minas Gerais. Enquanto Nikolas Ferreira obteve votos em todas as 853 cidades mineiras, desestruturando estratégias regionalistas de adversários e permitindo que outros candidatos do PL se beneficiassem da sua votação, concorrentes de centro e direita com forte atuação em redutos específicos ficaram de fora da Câmara dos Deputados mesmo alcançando marcas expressivas.
Como desdobramento do impasse, as bancadas partidárias planejam realizar reuniões internas para tentar construir uma unidade em torno do tema. Um novo encontro para debater a reforma eleitoral foi agendado para a próxima semana, sob a condução de Hugo Motta, com a participação de líderes e presidentes de partidos na tentativa de destravar as negociações no Congresso Nacional.