Floresta da Tijuca: legado de Dom Pedro II contra a escassez de água
Iniciativa imperial do século XIX transformou encostas devastadas por cafezais em uma das maiores florestas urbanas do mundo.
No início do século XIX, as montanhas do Maciço da Tijuca, no Rio de Janeiro, foram amplamente desmatadas para dar lugar a plantações de café e à produção de carvão. Com o solo exposto e sem cobertura vegetal, as nascentes que abasteciam a capital do Império começaram a secar, gerando graves crises de falta de água na década de 1840 e no início de 1850.
Para conter o problema e proteger os mananciais, o imperador Dom Pedro II aprovou, em 11 de dezembro de 1861, um decreto histórico que determinava o replantar das áreas degradadas da região. A medida é considerada uma das primeiras iniciativas de reflorestamento planejado por um governo nas Américas.
A execução do projeto foi confiada ao major Manuel Gomes Archer, que administrou a floresta entre 1862 e 1874. Contando inicialmente com um pequeno grupo de pessoas escravizadas e, posteriormente, com trabalhadores assalariados, o trabalho envolveu a formação de viveiros, a coleta de sementes e o plantio manual em encostas íngremes.
Entre os trabalhadores escravizados cujos nomes ficaram registrados na história estão Eleutério, Constantino, Manuel, Mateus, Leopoldo e Maria. Estima-se que cerca de 100 mil mudas, majoritariamente de espécies nativas da Mata Atlântica, tenham sido plantadas durante esse período inicial de recuperação.
Após a gestão de Archer, o barão Gastão d’Escragnolle assumiu a administração com o apoio do paisagista francês Auguste Glaziou para introduzir recantos e mirantes. Em 1961, cem anos após o decreto imperial, a área foi integrada a um parque nacional, que recebeu a denominação atual de Parque Nacional da Tijuca em 1967.
Atualmente administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o parque abriga marcos como o Cristo Redentor, a Pedra da Gávea e a Vista Chinesa. Com cerca de 4 mil hectares, a unidade de conservação desempenha funções ecológicas essenciais para a metrópole.
Entre os serviços prestados pela floresta urbana estão a regulação do fluxo de água, a amenização das temperaturas locais, a redução do risco de deslizamentos de terra e a preservação da fauna nativa, que inclui espécies como bugios e cutias reintroduzidas por projetos de restauração.
Mais de 160 anos após a decisão do imperador, o Parque Nacional da Tijuca permanece como um exemplo internacional de que a recuperação de ecossistemas degradados é possível, embora exija planejamento e um esforço que ultrapassa gerações.
Fontes consultadas
- Em 1861, o imperador Dom Pedro II mandou replantar as encostas devastadas por fazendas de café no Rio de Janeiro e, mais de 160 anos depois, a área é uma das maiores florestas urbanas do mundo - Super Rádio Tupi tupi.fm
- Disputa desde 2018: Por que despejo de idosa na Espanha simboliza crise habitacional em Madri? oglobo.globo.com