Justiça suspende liminar e Tifanny Abreu é impedida de atuar no vôlei
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro revogou a autorização que permitia a atleta trans jogar pelo Osasco.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro revogou nesta sexta-feira (23) a liminar que autorizava a jogadora de vôlei trans Tifanny Abreu a atuar por seu clube, o Osasco, em partidas do vôlei feminino nacional. A decisão ocorre em meio a um embate jurídico e esportivo em torno da nova política de elegibilidade da Confederação Brasileira de Voleibol.
A mudança nas regras foi anunciada pela CBV em agosto, quando a entidade passou a barrar a participação de atletas trans em competições femininas. A confederação justificou que a nova medida se adequa ao atual cenário regulatório internacional e busca garantir alinhamento com os critérios adotados pelo Comitê Olímpico Internacional, pela Federação Internacional de Voleibol e pela Confederação Sul-Americana de Voleibol.
No último dia 16, a atleta havia conseguido uma liminar na Justiça fluminense que lhe permitiu defender o Osasco na decisão da Supercopa Feminina de Vôlei contra o Praia Clube, além da estreia na Superliga contra a equipe de Brasília. Com grande atuação de Tifanny, o time paulista conquistou o título da Supercopa por 3 sets a 0.
Paralelamente à decisão na Justiça comum, a Justiça Desportiva rejeitou por unanimidade um recurso apresentado pela jogadora. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva defendeu a autonomia da CBV para atualizar seus critérios técnico-desportivos e regulamentares, argumentando que a existência de normas internacionais valida as alterações promovidas pela entidade nacional.
Antes da nova diretriz da CBV, a confederação permitia a presença de atletas trans desde que se submetessem a tratamentos hormonais para manter os níveis de testosterona abaixo de 5 nmol/L. A atleta, que concluiu a transição de gênero e estreou na categoria em 2017 após autorização da Federação Internacional de Voleibol, atua no Osasco desde 2021 e foi a única transexual a disputar a Superliga na temporada passada.
Apesar da proibição nas competições da CBV, Tifanny chegou a conquistar o Campeonato Paulista com o Osasco após a Federação Paulista de Volleyball liberar sua participação, sob o argumento de que o torneio seguiria as regras adotadas no início da disputa. A CBV declarou que cumpriu integralmente a decisão anterior enquanto ela esteve em vigor e que continuará respeitando todas as determinações do poder judiciário e da justiça desportiva.
Em publicação recente nas redes sociais, a atleta pontuou sua trajetória nas quadras. 'Não quero que minha história seja reduzida a uma discussão. Quero que ela também seja enxergada com humanidade, respeito e responsabilidade. Continuo acreditando na força do esporte, no diálogo, na Justiça e na possibilidade de construir caminhos com dignidade', escreveu Tifanny. Procurada, a jogadora ainda não se manifestou sobre as novas decisões da Justiça.
O endurecimento das regras para mulheres transgênero tem sido adotado por diversas entidades esportivas internacionais, como World Aquatics, World Athletics e UCI, sob a alegação de preservar a equidade na categoria feminina devido a supostas vantagens competitivas biológicas. Especialistas, contudo, apontam que ainda não há um consenso acadêmico definitivo sobre a questão.