Avanço do peixe-leão mobiliza equipes de resgate e cientistas no Brasil
Espécie invasora e venenosa já se espalhou por todo o litoral cearense e preocupa autoridades ambientais em Fernando de Noronha e na Bahia.
Mergulhadores capturaram 138 peixes-leão durante uma operação de manejo realizada em Fernando de Noronha, reforçando o alerta ambiental sobre a proliferação rápida da espécie no litoral brasileiro. A ação ocorreu em uma área de profundidade de 47 metros, situada entre o Porto de Santo Antônio e a Praia da Conceição. Segundo o coordenador da operação, Fernando Rodrigues, a espécie invasora demonstra alta capacidade reprodutiva e pode causar danos severos ao ecossistema marinho caso o esforço de captura seja reduzido.
O peixe-leão é considerado uma das principais ameaças à biodiversidade marinha porque não possui predadores naturais conhecidos no Atlântico Sul. Um único exemplar é capaz de consumir até 20 peixes em um intervalo de 30 minutos, colocando em risco espécies nativas e o equilíbrio ecológico dos recifes. Além do impacto ambiental, a presença do animal gera preocupações para a saúde pública, uma vez que seus espinhos dorsais contêm toxinas capazes de provocar acidentes dolorosos em pescadores, banhistas e mergulhadores.
No Ceará, a invasão atingiu todos os 20 municípios litorâneos do estado, ocupando uma faixa de 573 quilômetros de costa desde os primeiros registros em 2022. Pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), apontam que a população da espécie na região pode ultrapassar um milhão de indivíduos. A dispersão ocorreu de forma natural a partir do Caribe, utilizando recifes profundos da Amazônia como corredor ecológico para alcançar a costa brasileira.
A gravidade da situação mobilizou ações conjuntas entre cientistas, órgãos ambientais, mergulhadores e comunidades de pescadores artesanais. Em áreas como Jericoacoara, a mobilização local resultou na redução temporária da presença do predador em trechos específicos após campanhas de conscientização e varreduras com equipamentos adaptados. No entanto, o avanço da espécie continua em direção a outras regiões, com registros recentes no sul da Bahia e projeções de expansão para o Sudeste e o Sul do país.
Para conter o avanço do animal, unidades de conservação estaduais no Ceará têm regulamentado o manejo de fauna exótica invasora, permitindo a remoção manual com arpões e o monitoramento contínuo em áreas protegidas, como o Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio. Em paralelo, autoridades de saúde reforçam as orientações sobre os riscos de envenenamento e a necessidade de atendimento médico imediato em caso de acidentes com os espinhos venenosos.
Especialistas ressaltam que a erradicação completa do peixe-leão é biologicamente inviável devido à capacidade da espécie de recolonizar áreas rasas a partir de populações estabelecidas em grandes profundidades. Dessa forma, as estratégias científicas e operacionais concentram-se no controle populacional contínuo e na conscientização pública para mitigar os impactos socioambientais na pesca artesanal e na biodiversidade nativa.