Justiça torna réus 12 ex-executivos da Americanas por fraude contábil
Decisão da 6ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro dá início à ação penal contra antigos dirigentes da varejista por crimes como falsidade ideológica e manipulação de mercado.
A Justiça Federal do Rio de Janeiro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) e tornou réus 12 ex-executivos da Americanas por suspeita de participação em um esquema de fraude contábil que gerou um rombo de aproximadamente R$ 20 bilhões na companhia. A decisão, proferida pela 6ª Vara Federal Criminal, marca o início de uma ação penal que investiga crimes de associação criminosa, falsidade ideológica, manipulação de mercado e uso de informação privilegiada.
Entre os novos réus está o ex-presidente da varejista, Miguel Gutierrez, apontado pelos investigadores como o principal articulador das irregularidades. Além dele, a lista inclui Anna Saicali, José Timótheo de Barros, Anna Christina Sotero, Carlos Padilha, João Guerra, Murilo Corrêa, Maria Christina Nascimento, Fabien Picavet, Raoni Lapagesse, Luiz Saraiva e Jean Pierre Lessa. O processo, que tramita sob sigilo judicial, é um desdobramento da Operação Disclosure, iniciada após a revelação das inconsistências financeiras em janeiro de 2023.
A denúncia original do MPF, apresentada em março de 2025, incluía 13 nomes. No entanto, o número de réus foi reduzido após o ex-diretor Márcio Cruz Meirelles firmar um acordo de colaboração premiada com o Ministério Público em outubro de 2025. O acolhimento da acusação pela Justiça ocorre após um período de debates sobre o acesso das defesas ao vasto conjunto probatório, que inclui dados armazenados em 48 discos rígidos coletados durante as investigações.
Segundo as investigações, os antigos dirigentes teriam manipulado registros contábeis e controles internos para apresentar resultados financeiros incompatíveis com a realidade econômica da empresa. Essas informações, enviadas ao conselho de administração e ao mercado de capitais, teriam ocultado problemas estruturais da companhia durante anos, prejudicando investidores e credores. A descoberta do esquema foi o estopim para que a Americanas solicitasse recuperação judicial logo após o anúncio das inconsistências.
Em nota oficial divulgada nesta sexta-feira (16), a Americanas reiterou que foi vítima de uma "fraude estruturada e de natureza dolosa" cometida pelos ex-executivos. A companhia afirmou que os antigos dirigentes violaram deveres fiduciários e a legislação do mercado de capitais ao manipular dados relevantes. A empresa declarou ainda que, embora não tenha tido acesso imediato à decisão judicial, confia no trabalho das autoridades para a devida responsabilização dos envolvidos.
O recebimento da denúncia não implica condenação, mas estabelece que o Judiciário identificou elementos suficientes para prosseguir com a ação penal, permitindo que os acusados apresentem suas defesas. Paralelamente ao processo criminal, a Polícia Federal mantém as investigações sobre o caso. Em junho de 2026, uma nova fase da Operação Disclosure foi deflagrada para apurar a possível participação de instituições financeiras e verificar se acionistas possuíam conhecimento ou envolvimento nas irregularidades, embora, até o momento, não haja comprovação de culpa de terceiros além dos ex-executivos denunciados.